terça-feira, março 13, 2007

Crónicas...


"É como se não tivesse acontecido nada, eu aqui sossegado, as coisas no lugar do costume
(as mesmas coisas)
móveis, fotografias, isso assim, os prédios do costume na janela, as árvores do costume na outra janela, o candeeiro no tecto, o metálico, de pé, ao lado do sofá, tudo igualzinho, sem diferenças, e apesar de não ter acontecido seja o que for a gente pergunta-se
- O que foi?
e não acha uma resposta concreta, acha um desconforto, uma inquietação vaga, qualquer coisa por dentro
(não se percebe o quê)
talvez um engano, talvez nada, e não engano, e não nada, o desconforto real, a inquietação real, vontade de telefonar mas a quem, de dizer mas o quê, a zanga de não compreenderem o que a gente não compreende e todavia existe, olhamos para a estante, olhamos para a mesa e a estante e a mesa idênticas, os passos do vizinho logo acima e tão remotos hoje que os queríamos próximos, se alguém tocasse à porta, me chamasse
(não chamam)
se alguém
- Estou aqui
e não estão, se me levantasse
(não me levanto)
o corpo pesadíssimo, ossos, carne, melhor ficar quieto, pensar que daqui a pouco já não me lembro do que não me lembro agora, já esqueci o que não sei o que é e por não saber o que é não importa, e por não saber o que é importa, se me dessem uma ajudinha
(uma ajudinha?)
....."

Crónica para não ler à noite
António Lobo Antunes

2 Comments:

Blogger Claudia said...

Não sei se já te disse, mas gosto muito da escrita de Lobo Antunes. Por isso, obrigada por este bocadinho!

Beijo

3/14/2007 6:40 da tarde  
Blogger mar_e_sol said...

claudia, já disseste sim, que eu lembro-me...
Beijos

3/15/2007 12:35 da manhã  

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