sexta-feira, março 30, 2007

Vira o disco e toca o mesmo...

Por vezes pensava que o facto de ser permissiva com um certo tipo de conversas para não ser desagradável, seria o motivo pelo qual “gramava” com elas. Hoje, chego à conclusão que não tem nada a ver com isso. Independentemente de dizer aos outros que aqueles assuntos não me dizem nada e que não tenho pachorra para eles, os outros continuam iguais porque os assuntos lhes dizem muito e mais tarde ou mais cedo voltam a encher-me os ouvidos.
Sendo assim, só me resta mesmo uma opção: ser desagradável. E deduzo que terei que o ser sempre, se quero manter alguma sanidade mental. Porque cada um é como cada qual e mais nada...

quinta-feira, março 22, 2007

Águas de Março

Como isto tem andado um bocado parado, venho-vos dar um pouco de música :))

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego,
É uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando
É uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato,na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
Pau, pedra, o fim do caminho, um resto de toco, um pouco sozinho
Pau, pedra, o fim do caminho, um resto de toco, um pouco sozinho

Tom Jobin

quinta-feira, março 15, 2007

A magia da vida...


"É preciso correr riscos, dizia ele. Só percebemos realmente o milagre da vida quando deixamos que o inesperado aconteça.
Deus dá-nos todos os dias - junto com o sol - um momento em que é possível mudar tudo o que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não nos apercebemos desse momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual ao amanhã. Mas, quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na altura em que enfiamos a chave na porta, pela manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que parecem iguais. Mas nesse momento existe - um momento onde toda a força das estrelas passa por nós, e que nos permite fazer milagres.
Às vezes, a felicidade é uma benção - mas geralmente é uma conquista. O instante mágico do dia ajuda-nos a mudar, faz-nos ir em busca dos nossos sonhos. Vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões. Mas tudo isto é passageiro e não deixa marcas. E, no futuro, poderemos olhar para trás com orgulho e fé. Mas pobre de quem teve medo de correr riscos. Porque esse talvez não se decepcione nunca, nem tenha desilusões, nem sofra como aqueles que têm um sonho a seguir. Mas quando olhar para trás - porque olhamos sempre para trás - vai ouvir o seu coração a dizer: «o que fizeste com os milagres que Deus semeou nos teus dias? O que fizeste com os talentos que o teu Mestre te confiou? Enterraste-os bem fundo numa cova, porque tinhas medo de perdê-los. Então, esta é a tua herança: a certeza de que desperdiçaste a tua vida.»
Pobre daquele que escuta estas palavras. Porque então acreditará em milagres, mas os instantes mágicos da vida já terão passado."

in "Na margem do Rio Piedra eu sentei e chorei"
Paulo Coelho

Não tenham medo de ser felizes. A felicidade é uma conquista, não uma benção. Sigam sempre o caminho do coração, porque independentemente do caminho escolhido vir a ser o certo ou o errado, era o único possível numa determinada altura. Só assim vale a pena viver!

terça-feira, março 13, 2007

Crónicas...


"É como se não tivesse acontecido nada, eu aqui sossegado, as coisas no lugar do costume
(as mesmas coisas)
móveis, fotografias, isso assim, os prédios do costume na janela, as árvores do costume na outra janela, o candeeiro no tecto, o metálico, de pé, ao lado do sofá, tudo igualzinho, sem diferenças, e apesar de não ter acontecido seja o que for a gente pergunta-se
- O que foi?
e não acha uma resposta concreta, acha um desconforto, uma inquietação vaga, qualquer coisa por dentro
(não se percebe o quê)
talvez um engano, talvez nada, e não engano, e não nada, o desconforto real, a inquietação real, vontade de telefonar mas a quem, de dizer mas o quê, a zanga de não compreenderem o que a gente não compreende e todavia existe, olhamos para a estante, olhamos para a mesa e a estante e a mesa idênticas, os passos do vizinho logo acima e tão remotos hoje que os queríamos próximos, se alguém tocasse à porta, me chamasse
(não chamam)
se alguém
- Estou aqui
e não estão, se me levantasse
(não me levanto)
o corpo pesadíssimo, ossos, carne, melhor ficar quieto, pensar que daqui a pouco já não me lembro do que não me lembro agora, já esqueci o que não sei o que é e por não saber o que é não importa, e por não saber o que é importa, se me dessem uma ajudinha
(uma ajudinha?)
....."

Crónica para não ler à noite
António Lobo Antunes

Contradições? Ou não...


No nosso dia a dia, cruzamo-nos com dezenas de pessoas, cumprimentamos outras tantas, falamos com meia dúzia, mas dialogar, dialogar no verdadeiro acesso da palavra, acho que é raro. Senão vejamos:

- Esta noite dormi tão mal. Estava constantemente acordar blá blá blá...

- Esta noite? Estás cheia de sorte. Já não sei quando durma uma noite em condições. Blá blá blá...

Ou:

- Sabes o que me aconteceu esta manhã?

- Espera. Acabei de me lembrar de algo que não posso esquecer de fazer mais logo(...)o que dizias?

Ou:

..........................................................


Esta é a sensação que tenho. Todo o Mundo procura um ouvinte, mas ninguém ouve ninguém. Os diálogos encetados, são meros monólogos que diferem pelo simples facto de haver alguem presente fisicamente. Mas só isso. Por isso eu digo:

Sinto-me acompanhada estando só e sinto-me só estando acompanhada.

terça-feira, março 06, 2007

Mas...

Trazem promessas
Levam segredos
Sonhos que flutuam
Ideais que afundam
Mas...
É belo o seu espraiar!...