segunda-feira, junho 26, 2006

Ilusão versus desilusão

Vamos pela vida intercalando épocas de entusiasmo com épocas de desilusão. De vez em quando andamos inchados como velas e caminhamos velozes pelo mar do mundo; noutras ocasiões, mais frequentes do que as outras, estamos murchos como folhas que o tempo engelhou. Temos períodos dourados, em que caminhamos sobre nuvens e tudo nos parece maravilhoso, e outros, tão cinzentos, em que talvez nos apetecesse adormecer e ficar assim durante o tempo necessário para que tudo voltasse a ser belo.
A verdade é que não temos razões para nos deixarmos levar demasiado por entusiasmos, pois já devíamos ter aprendido que não podem ser duradouros. A vida é o que é, e não pode ser mais do que isso.
Desejamos muito uma coisa, pensamos que se a alcançarmos obtemos uma espécie de céu, batemo-nos por ela com todas as forças. Mas quando, finalmente, obtemos o que tanto desejávamos, passamos por duas fases desconcertantes. A primeira é um medo terrível de perder o que conquistámos: por conhecimento próprio ou porque conhecemos o que aconteceu anteriormente a outras pessoas em situações semelhantes à nossa; porque existe a morte, a doença, o roubo...
A segunda fase chega com o tempo e não costuma demorar muito: sucede que aquilo que obtivemos perde, lentamente ou de um dia para o outro, o encanto. Gastou-se o dourado, esboroou-se o algodão das nuvens. Aquilo já não nos proporciona um paraíso.
E é nesse momento que chega a desilusão, com todo o seu cortejo de possíveis consequências desagradáveis: podem passar-nos pela cabeça coisas como mudarmos de profissão, mudarmos de clube, trocarmos de automóvel ou de casa, emigrarmos... E, então, surge o desejo de partir atrás de outro entusiasmo: queremos voltar a amar...
Nunca mais conseguimos aprender o que é o amor.
Se nos desiludimos, a culpa não está nas coisas nem está nas outras pessoas. Se nos desiludimos, a culpa é nossa: porque nos deixámos iludir; porque nos deixámos levar por uma ilusão. Uma ilusão, há quem ganhe a vida a fazer ilusionismo: consiste em vestir com uma roupagem excessiva e falsa a realidade, de modo a distorcê-la ou a fazê-la parecer mais do que aquilo que é.
Quando nos desiludimos não estamos a ser justos nem com as pessoas nem com as coisas.
Nenhuma pessoa, nenhuma das coisas com que lidamos pode satisfazer plenamente o nosso desejo de bem, de felicidade, de beleza. Em primeiro lugar porque não são perfeitas (só a ilusão pode, temporariamente, fazer-nos ver nelas a perfeição). Depois, porque não são incorruptíveis nem eternas: apodrecem, gastam-se, engelham-se, engordam, quebram-se, ganham rugas...terminam.
Aquilo que procuramos, faz parte da nossa estrutura, não o podemos evitar: é perfeito e não tem fim. E não nos contentamos com menos de que isso. É por essa razão que nos desiludimos e que de novo nos iludimos: andamos à procura...
De resto, se todos ambicionamos um bem perfeito e eterno, ele deve existir. Só pode acontecer que exista. Mas deve ser preciso procurar num lugar mais adequado.

9 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Quanto mais se procura menos se encontra...mas nada como insistir e continuar..ehehe, beijinhossss, Léo

6/26/2006 12:50 da manhã  
Blogger A. said...

...eu sei que sim.
muito obg.

um imenso abraço.

6/26/2006 1:17 da manhã  
Blogger alikimista said...

Lindo..mas é justamente essa busca que fascina.
Jinhos

6/26/2006 8:21 da manhã  
Blogger naturalissima said...

Depois de ter lido este último artigo, quis logo deixar-te algumas palavras. É tanta palavra que não sei por onde começar! Fiquei sensibilizada, e vejo-me no meio de todas aquelas frases.
Somos seres complexos, insastifeitos e procuramos algo que nos seja eterno, mas isso de facto não passa de ilusões.
Temos de procurar e aprender a viver aceitando com naturalidade o que nos vem à mão e o que achamos.
Apaixonamos-nos! è evidente que não dura essa chama. Logo procuramos aceitar que esse estado transfrma-se em amor, respeito e uma profunda amizade. Quando nada disso acontece, é porque a pessoa só quer viver em estados de permantente entusiasmos. Saltidando de nuvem em nuvem. Mas a realidade é que não será nunca feliz.

Vamos aprender a observar para dentro de nós e encontrarmos o nosso próprio equilibrio, a nossa felicidade. Está cá tudo dentro do nosso ser.
Não devemos procurar a felicidade em função dos outros, nem das coisas.


Um bom dia para ti
Obrigada por este momento, foi impotante para mim.
Já sei, se precisar de espelho, venho a este blog.

Beijinhos
Daniela

6/26/2006 11:00 da manhã  
Blogger Claudia said...

Continuo a procura...
Sempre...

Beijo

6/26/2006 11:16 da manhã  
Blogger mar_e_sol said...

Léo, a nossa busca é eterna, só assim a vida faz sentido :)
beijinhos

a., :))
Abraço de volta

alikimista, é o sal que nos tempera...
Obg pela visita
Beijo

naturalissima, eterna é a nossa alma, a nossa essência, tudo o resto é efémero. Obrigada pelas tuas palavras. Deixaste-me com um sorriso no rosto.
Beijinho

claudia, parar é morrer...
Beijo

6/26/2006 1:43 da tarde  
Blogger naturalissima said...

Obrigada pelo teu valioso comentário em relação à fome da vida.
Um beijo enorme
Daniela

6/26/2006 2:28 da tarde  
Blogger maresia_mar said...

O problema é que passamos a vida em busca de algo que não existe e esquecemo-nos de viver, de valorizar as pequenas grandes coisas da vida. Por isso o meu lema é: viver um dia de cada vez e saborear cada minuto... Bjhs

6/26/2006 3:17 da tarde  
Blogger mar_e_sol said...

naturalissima, assim fico sem jeito ;)
Beijo

maresia_mar, concordo com o teu lema, mas...
Beijo

6/26/2006 11:33 da tarde  

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